LESÃO NO PÉ DA PESSOA COM DIABETES: SIMULAÇÃO REALÍSTICA, FORMAÇÃO INTERPROFISSIONAL E CUIDADO INTEGRAL
Palavras-chave:
Pé diabético, Desbridamento, Estomaterapia, Segurança do Paciente, Protocolos ClínicosResumo
Objetivo
Analisar criticamente a experiência do uso da simulação realística no treinamento de estudantes de enfermagem e medicina sobre o cuidado da lesão no pé da pessoa com diabetes mellitus tipo 2.
Desenvolvimento
Estudo descritivo, do tipo relato de experiência, desenvolvido a partir de simulação clínica de alta fidelidade como estratégia inovadora no contexto da graduação em Enfermagem e Medicina, especialmente no ensino do tratamento de feridas. O cenário envolveu paciente masculino fictício, 62 anos, com diabetes mellitus tipo 2 há 15 anos, hipertensão arterial sistêmica e tabagismo ativo, permitindo vivência prévia e segura antes do contato com o paciente real. Foram analisados dados clínicos, achados semiológicos, condutas adotadas e sua conformidade com recomendações de diretrizes internacionais para manejo do pé diabético, incluindo as orientações do International Working Group on the Diabetic Foot, da Wounds International e da Associação Brasileira de Estomaterapia, além da integração entre diferentes áreas profissionais no cuidado.
O paciente apresentou úlcera em antepé direito há aproximadamente 60 dias, medindo 2,5 cm, com bordas maceradas, hiperemia periférica, odor fétido leve e sinais sugestivos de biofilme. Relatava glicemias frequentemente superiores a 250 mg/dL e uso irregular de antidiabéticos. Ao exame, evidenciou-se perda de sensibilidade ao monofilamento de Semmes-Weinstein e pulsos periféricos diminuídos, indicando neuropatia periférica associada a possível comprometimento vascular. Identificaram-se falhas relevantes no processo assistencial, como ausência de registro sistematizado, uso de gaze seca inadequada para controle do exsudato, inexistência de avaliação da perfusão (ABI) e ausência de estratégias de offloading. A análise evidenciou fatores intrínsecos (hiperglicemia crônica, neuropatia, doença arterial periférica) e extrínsecos (pressão plantar contínua, manejo inadequado da umidade e ausência de protocolo institucional) que contribuíram para atraso cicatricial e aumento do risco infeccioso. O caso demonstra que a lesão no pé da pessoa com diabetes constitui evento multifatorial, associado a alterações metabólicas, neurológicas e vasculares, agravadas por falhas na avaliação clínica e no manejo local da ferida. A simulação possibilitou reconhecer a importância da atuação multidisciplinar e da comunicação interprofissional, favorecendo uma abordagem centrada na pessoa e não apenas na lesão ou doença, além de preparar os estudantes para atuação mais segura e resolutiva no cenário real.
Considerações Finais/Contribuições para a Estomaterapia
O estudo reforça o papel estratégico do enfermeiro estomaterapeuta na avaliação especializada da ferida, na identificação de neuropatia e perfusão comprometida, na seleção de coberturas tecnológicas (como hidrofibras com prata), na indicação de desbridamento adequado e na implementação de estratégias de offloading. Destaca-se ainda a importância da educação terapêutica, do controle glicêmico rigoroso e da atuação integrada com clínica médica, endocrinologia e fisioterapia, evidenciando a relevância do trabalho multidisciplinar para o cuidado integral. A simulação demonstra caráter inovador na graduação, sobretudo na formação médica em tratamento de feridas, ao possibilitar desenvolvimento de competências clínicas, raciocínio diagnóstico e tomada de decisão baseada em evidências antes da prática com pacientes reais, contribuindo para redução de complicações, prevenção de amputações e qualificação da assistência em saúde.
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Referências
International Working Group on the Diabetic Foot (IWGDF). IWGDF guidelines on the prevention and management of diabetic foot disease. 2023 update. The Hague: IWGDF; 2023.
Wounds International. Best practice guidelines: Wound management in diabetes. London: Wounds International; 2020.
Associação Brasileira de Estomaterapia (SOBEST). Diretrizes para o cuidado em feridas. São Paulo: SOBEST; 2019.
National Pressure Injury Advisory Panel (NPIAP). Prevention and treatment of pressure injuries: Clinical practice guideline. 3rd ed. Washington (DC): NPIAP; 2019.


