INTERSECCIONALIDADE NO CUIDADO À CRIANÇA TRAQUEOSTOMIZADA: PROTAGONISMO DA ESTOMATERAPIA NA IMPLEMENTAÇÃO DE PROTOCOLO ASSISTENCIAL PEDIÁTRICO
Palavras-chave:
Estomaterapia, Traqueostomia, Pediatria, Vulnerabilidade socialResumo
Objetivo
Relatar a experiência de elaboração e implementação de um protocolo assistencial para o manejo de traqueostomia pediátrica em um Cancer Center, sob a perspectiva da interseccionalidade, destacando o protagonismo da estomaterapia na qualificação do cuidado e na promoção da segurança do paciente.
Desenvolvimento
Trata-se de um relato de experiência sobre a construção e implantação de protocolo institucional para o cuidado de crianças traqueostomizadas em contexto oncológico, conduzido por uma estomaterapeuta. A iniciativa surgiu da necessidade de padronizar práticas assistenciais frente à elevada complexidade clínica e aos riscos associados ao manejo de vias aéreas artificiais em pediatria.
O protocolo foi desenvolvido com base em evidências científicas e consensos clínicos, contemplando indicação de traqueostomia, seleção de cânulas conforme idade e peso, manejo do cuff, aspiração endotraqueal, umidificação, cuidados com a pele periestomal e critérios para decanulação. Foram estruturados fluxos assistenciais e algoritmos de decisão clínica, com ênfase no processo de decanulação, visando maior segurança, rastreabilidade e uniformidade das condutas.
Destaca-se o protagonismo da estomaterapia na condução de todas as etapas: articulação com a equipe multiprofissional e médica, elaboração do protocolo e fluxos, padronização de dispositivos e lideranças dos processos educativos.
O protocolo valorizou a atuação multiprofissional integrada (enfermagem, fisioterapia, fonoaudiologia e equipe médica), com ênfase na educação de familiares e cuidadores para o manejo seguro no domicílio, incluindo reconhecimento de complicações e condutas frente a emergências, como decanulação acidental e obstrução do dispositivo por muco. O planejamento de alta foi estruturado como etapa essencial, incorporando estratégias para continuidade do cuidado na rede de atenção à saúde.
Sob a perspectiva da interseccionalidade, reconhece-se a criança traqueostomizada como sujeito em sobreposição de vulnerabilidades: condição oncológica, dependência de tecnologia (traqueostomia como deficiência funcional respiratória) e dependência de cuidadores, o que impacta diretamente o acesso, a continuidade e a segurança do cuidado. Nesse contexto, o planejamento de alta foi estruturado como etapa central do protocolo, com estratégias voltadas à transição segura para o domicílio e integração com a rede de atenção à saúde.
A disponibilização do protocolo em sistema institucional e a realização de treinamentos favoreceram sua adoção, contribuindo para a organização do cuidado e redução da variabilidade assistencial.
Considerações Finais/Contribuições para a Estomaterapia
A experiência evidencia o papel estratégico da estomaterapia na liderança de processos assistenciais complexos, promovendo padronização, educação em saúde e integração multiprofissional. A incorporação da perspectiva interseccional qualifica o cuidado ao orientar práticas mais equitativas, seguras e centradas na criança e sua família. O protocolo configura-se como ferramenta replicável, com potencial de impacto na melhoria da qualidade assistencial e nos desfechos clínicos em contextos de alta complexidade.
Downloads
Referências
Fraga JC, Souza JCK, Kruel J. Pediatric tracheostomy. J Pediatr. 2009;85:97-103.
Fuller C, Wineland M, Richter GT. Update on pediatric tracheostomy. Int J Pediatr Otorhinolaryngol. 2021.
Avelino MAG, et al. Recomendações em crianças traqueostomizadas. Braz J Otorhinolaryngol. 2017;83(5):498-506.
Santos MSA, Carvalho REFL. Protocolo para decanulação pediátrica. Audiol Commun Res. 2023;28.
Kennedy A, et al. Pediatric tracheostomy decannulation. Int J Pediatr Otorhinolaryngol. 2021;141:110565.


