DESERTO SANITÁRIO URBANO E PRIVAÇÃO DE CONTINÊNCIA: REVISÃO INTEGRATIVA E MODELO DE RISCO
Palavras-chave:
incontinência urinária, acessibilidade urbana, sanitários públicos, estomaterapiaResumo
Objetivo
Examinar o impacto da acessibilidade a sanitários públicos sobre a vida de pessoas com incontinência urinária (IU) e fecal (IF) de urgência, formulando o conceito de Deserto Sanitário Urbano (DSU) e o Índice de Continência Urbana (ICU) como ferramentas de risco social.
Método
Conduziu‑se revisão integrativa em bases biomédicas, de saúde pública e urbanismo, além de literatura cinzenta (relatórios e políticas), incluindo estudos com adultos portadores de IU/IF, dados de densidade de sanitários públicos e desfechos psicossociais. Foram extraídos prevalências de IU/IF, indicadores de infraestrutura (número de sanitários por área ou por habitantes, tempo de caminhada até banheiro adequado), medidas de qualidade de vida e sintomas de ansiedade/depressão. A síntese buscou integrar carga de doença, ecologia urbana do sanitário e participação social, originando categorias de risco para o ICU.
Resultados
Inquéritos populacionais estimam IU em 20–30% das mulheres adultas e 5–15% dos homens, com aumento relevante após a meia‑idade; IF oscila entre 2–10%, fortemente associada à pior qualidade de vida. Estudos sobre infraestrutura indicam retração de sanitários públicos em grandes cidades e distribuição desigual, com déficit em periferias, terminais de transporte e áreas de maior vulnerabilidade socioeconômica. Pesquisas qualitativas e levantamentos recentes mostram que mulheres e pessoas com condições crônicas, como IU/IF, enfrentam filas mais longas, maior insegurança e maior tempo de espera, revelando viés de gênero e de classe na oferta de sanitários. Em amostras de adultos com IU, ausência de sanitários previsíveis em rotas diárias dobrou o risco de sintomas depressivos e associou‑se a auto‑restrição de saídas, abandono de trabalho e isolamento social. A partir desses achados, o ICU combina: eixo clínico (gravidade da IU/IF, episódios semanais, uso de absorventes ou dispositivos), eixo urbano (tempo médio até sanitário adequado, custo, acessibilidade arquitetônica e segurança) e eixo psicossocial (grau de restrição de rotas, ansiedade e depressão autorreferidas). Classificações altas de ICU definem DSU grave e máxima privação de continência urbana.
Conclusão
As evidências indicam que viver com IU/IF em áreas de DSU configura forma específica de injustiça sanitária, na qual a combinação de alta carga de sintomas e baixa oferta de sanitários acessíveis limita mobilidade, agrava sofrimento psíquico e amplia desigualdades de gênero e renda
Considerações/Contribuições para a Estomaterapia
Na prática da estomaterapia e da enfermagem em saúde pública, o ICU pode ser aplicado em consultas de pessoas com IU/IF, permitindo identificar risco social alto mesmo em pacientes clinicamente bem compensados. Profissionais podem registrar rotas críticas sem sanitários, emitir laudos para adaptações em trabalho e estudo, prescrever dispositivos coletores, orientar estratégias de “planejamento de banheiros” e articular‑se com equipes de atenção básica para advocacy pela instalação de sanitários acessíveis em unidades, praças e corredores de transporte. Ao transformar o DSU em variável mensurável, a estomaterapia reforça seu papel na defesa de direitos à continência, à mobilidade e à participação social.
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Referências
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